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Se me permitem sonhar...

Desenvolvimento e civilizações, N°389, dezembro 2010

por Chico Whitaker(1)

Retomamos aqui extratos da segunda parte do texto
Se me permitem sonhar…
disponivel na íntegra no site de Chico Whitaker e num blog criado especialmente para recolher as reações e as contribuições dos leitores.
www.chicowhitaker.net
Se nos permitem sonhar

Editorial
Se me permitem sonhar
Para uma economia das necessidades
Participação do Centreo Lebret-Irfed no Fórum Social Mundial
"O otimismo do coração"

Editorial

por Richard Werly

Tudo foi dito. Este é o sentimento que nos inspira o texto de Chico Whitaker, cuja versão original, mais comprida, também aborda os problemas políticos e institucionais do Brasil “pós-Lula”. Tudo foi dito, porque o autor, lutador incansável, encara as realidades de frente. Ele não alenta a negá-las. Não exorta a desbancar os líderes estabelecidos. Sua lógica é a da resistência leal, democrática, intelectual. A qual requer de pensar de outra forma.

Publicamos em nossa última edição uma série de depoimentos e uma carta : nosso chamamento para um "novo impulso" na Rede internacional coordenada pelo Centro Lebret-Irfed. Não podíamos, um mês depois, esperar melhor continuação. O que Chico Whitaker escreve sobre o Brasil quase poderia tornar-se a nossa carta. Porque realizar a ruptura implica ousar, pensar em alternativas e defendê-las obstinadamente. Exige, poderíamos acrescentar, de ser tanto quanto realista quando algumas dessas novas propostas fracassam ou levam a becos sem saída.

Estaremos, no próximo mês de fevereiro, participando do Fórum Social Mundial em Dacar. Foi lá, no Senegal, entre outros, onde Louis-Joseph Lebret se debruçou na construção de um modelo diferente de desenvolvimento, como fez em seguida no Brasil. Releiamos seus escritos. Continuemos o debate aberto de forma brilhante por Chico Whitaker. O ano de 2011, que lhes desejamos excelente, deve permitir-nos sonhar, nós também…

Se me permitem sonhar…

Precisava da coragem e da lucidez de Chico Whitaker para destacar-se dos elogios que ouvimos todo dia sobre o sucesso do Brasil, nova grande potência mundial. Sim, o orgulho de ser brasileiro está intacto. Sim, Lula marcou seu pais. Mas tudo isso não deve silenciar as injustiças e os abusos. E, acima de tudo, não deve fazer do capitalismo desenfreado o único horizonte deste novo gigante.

Dois imensos obstáculos atravancam nossa história – mais alem portanto do simples “crescimento” de nossa economia. Eles estão entre os que mais impedem a quitação da perversa dívida social que se acumulou no Brasil, ao longo de séculos, levando à escandalosa desigualdade social que hoje caracteriza nosso país - um dos atuais campeões mundiais nesse macabro campeonato. Mas não são obstáculos a serem desmontados só pelo próximo governo. Será necessária a ação de toda uma geração de cidadãos, e talvez mais de uma geração. Por isso o título deste texto : “se me permitem sonhar”…

O primeiro é o modo como o Executivo e o Legislativo se relacionam no Brasil. Trata-se de um problema institucional.

O segundo é - nada mais nada menos, perdoem-me a ousadia - o sistema econômico capitalista em que estamos inseridos. Peço aos lectores que me desculpem colocar esta afirmação… Mas é sem dúvida dramática a tranqüilidade com que essa possibilidade nem é colocada no Brasil, a não ser nos círculos intelectuais ou militantes que continuam a discutir as lições dos velhos teóricos da crítica ao capitalismo. Ou, no máximo, por políticos que não se importam em se tornar ou permanecer inelegíveis. Como se nós brasileiros estivéssemos definitivamente conde-nados a viver nesse regime econômico, e com regimes políticos que o sustentem. A ex-Primeira Ministra britânica Margaret Thatcher estaria muito satisfeita se vivesse por aqui, achando que estamos definitivamente convencidos do acerto de seu slogan de campanha – TINA (em inglês, “não há alternativa”) - segundo o qual tudo tem que ser resolvido pelos mecanismos de mercado e pode ser resolvido somente por eles. E quanto menos regulamentação estatal melhor.

As infra-estruturas mais do que os homens

De fato, as “equipes econômicas”, como se diz, dos nossos sucessivos governos, raciocinam inteiramente integradas ao regime capitalista. E o fazem de forma absolutamente natural, sem maiores dúvidas, como quem diz : a realidade é essa, vamos fazer o melhor que pudermos dentro dela…

O objetivo é o crescimento econômico, dourando-se a pílula com a palavra desenvolvimento , e os mais lúcidos agregando : sim, mas “com distribuição da renda”, já que não há quem ouse sustentar a mensagem do tempo dos militares, segundo a qual era preciso primeiro fazer crescer o bolo para depois reparti-lo. Mas os chamados “desenvolvimentistas” só pensam nas infra-estruturas que são exigidas, deixando de lado teses que consideram ingênuas, como a de documentos da Igreja Católica que colocam como objetivo a perseguir o “desenvolvimento de todo o homem e de todos os homens”(2)

Por isso mesmo não se poderia também esperar outra coisa dos “comentaristas econômicos” de nossos jornais, rádios e TVs, que falam todos os dias do que ocorre no chamado mundo da economia. “Fazendo nossas cabeças” não lhes passa pelas próprias cabeças nenhuma sombra de dúvida sobre a validade desse regime. E quando tudo parece ir muito bem, como está ocorrendo neste fim de governo de Lula, conseguem até fazer com que esqueçamos a desigualdade social - pelo menos quem vive e circula somente em áreas privilegiadas, a não ser que tropecemos em algum morador de rua ou a violência urbana nos atinja. Acabamos todos experimentando uma ponta de orgulho – “patriótico” – quando uns e outros nos dizem que o Brasil está finalmente “decolando” rumo ao Primeiro Mundo, ao emergir como nova grande potência, que passa de oitava a sétima economia mundial. E talvez tenhamos até uma certa satisfação, ainda que meio enver-gonhada, quando nos anunciam que vários brasileiros já estão no ranking das pessoas mais ricas do mundo. Nossas rádios tem portanto de nos manter informados, mais de uma vez por dia por dia, de como andam as Bolsas de Valores aqui e em todas as “praças” do mundo, já que as pesquisas mostram, para gáudio geral, que está crescendo o número de “investidores” brasileiros – grandes e “pequenos” - que nelas buscam ganhar dinheiro, assim como o número de nossas empresas que nelas “captam” recursos para sua expansão. Nossas grandes empreiteiras apóiam gulosamente todo grande projeto de infra-estrutura lançado pelo governo, por mais que agrida a natureza, e se irritam com índios e ambientalistas que tentam obstruir o caminho de seus tratores e caminhões na conquista de grandes lucros. E aquelas que se transformam em multinacionais agem lá fora com a mesma violência destruidora, até de comunidades humanas, das piores “companhias” capitalistas das antigas potencias coloniais e de grandes empresas dos países hoje mais poderosos. E a postura a adotar é a “competitiva”, condição fundamental para que vença quem tem espírito “empreendedor” - em casa, na escola, no trabalho, no esporte, no desenvolvimento da empresa, até no lazer.

Frente ao rolo compressor do capitalismo

É óbvio que se quisermos “superar” esse regime, os obstáculo a enfrentar são de dimensão mundial. Ele não é passível de um “acerto” à moda brasileira do jeitinho, como um pequeno monstro domesticável. Estamos frente a um tremendo gigante, que agora domina pratica-mente toda a Terra, brincando com o mundo como se fosse uma bola nas suas mãos. Nascido há mais de quinhentos anos, foi se desenvolvendo, sem teoria prévia, com base numa prática que ia definindo seus caminhos. Depois de romper a Cortina de Ferro na Europa, sua lógica derrubou tranquilamente até as muralhas da China. Sua musculatura se enrijeceu numa luta continua para se afirmar, armando guerras, enfrentando terroristas, derrubando e assassinando lideres políticos, em qualquer país que fosse, que ousassem questionar seu poder.

Mobilizou um número infinito de inteligências humanas, nos melhores centros universitários, para estudar suas crises e encontrar o modo de superá-las sem que perdesse sua força, o que lhe assegurou uma enorme capacidade de resistência e adaptação, até incorporando em sua linguagem princípios e conceitos dos que o combatiam. Mas atualmente a maior dificuldade em vencer o sistema capitalista não está na extrema desproporção entre a força militar dos países que passaram a defendê-lo e a dos países que contestam sua dominação ; ela resulta do efeitos das duas armas de “cooptação massiva” que ele utilizou para estabelecê-la e ainda usa para assegurá-la.

Consumo e propaganda

A primeira destas armas foi construída, paradoxalmente, a partir de uma de suas principais fraquezas : sua dependência absoluta dos consumidores. A segunda se apoiou num dos principais métodos usados pelos tristes regimes fascistas para se impor : a propaganda. A combinação dessas duas armas fez com que o principal instrumento de dominação do sistema capitalista não fosse a conquista e ocupação de territórios mas a profunda penetração da sua lógica e dos seus valores nas cabeças e nos corações dos seres humanos. Seu principal defensor distribui, por via das dúvidas, muitas bases militares pelo mundo afora. Mas o controle das áreas dominadas resulta do uso combinado das duas armas de cooptação massiva.

E no Brasil ? O que dizer do uso, entre nós, das armas do consumismo e da propaganda ? Acredito que nem são necessárias maiores considerações. O medo do comunismo se associou facilmente ao medo do simples socialismo - ainda quando proposto com o adjetivo “democrático”, como o fazia o Partido dos Trabalhadores (PT) nos seus inícios, para não confundir sua mensagem com os erros cometidos pelos soviéticos. Cinqüenta anos de propaganda fizeram com que comunistas e socialistas sejam até hoje vistos como seres ferozes que matam e comem criancinhas.

Quanto ao consumismo - essencial ao crescimento econômico capitalista - já estamos totalmente infectados por ele. A publicidade, usando sem limites os modernos meios de comunicação de massa, tornou nossa classe média consumista até a alma, como as classes médias de todo o mundo atual. Ela está mais do que feliz com os agradáveis, seguros, bonitos – às vezes majestosos – shoppings que se multiplicam por todo o Brasil. Onde pode – ou espera poder – realizar todos os seus sonhos de felicidade. E dizem que está crescendo cada vez mais, assim como o seu prazer de comprar.

A mudança, esse enemigo

Aí vem então a questão : se esse é o quadro vivido pela nossa gente, para que mudá-lo ? Não se altera o time quando ele está ganhando, dizem nossos inúmeros comentaristas de futebol. A má imagem dos socialistas e assemelhados só prejudica a eles mesmos, e pode até fazer com que os partidos que querem assegurar nosso “progresso com ordem” ganhem as eleições. E se estamos querendo e podendo consumir cada vez mais, tudo bem ! Porque vir com essa história de superar o capitalismo ? Até os mais “oprimidos” de nosso país não entenderão o sentido e a necessidade dessa proposta.

Não daria para ir seguindo adiante na trilha em que estamos, corrigindo este ou aquele excesso, redirecionando-nos neste ou naquele atalho, reequilibrando a marcha no que esteja meio descompensada ? Reformas não existem para mudar o que precisa ser mudado evitando exageros ou perdas de rumo ? Os empresários – agentes por excelência da expansão capitalista – não estão criando exigências para que sua categoria não seja empurrada para a irresponsabilidade social ? A maioria deles enxerga nessas novas exigências a possibilidade de melhorar suas imagens - nenhum quer aparecer como selvagem - para poder vender mais. Mas não é o aumento do consumo que interessa a todos ?

Lutar é indispensavel

Dispomos agora até de um novo conceito, o de sustentabilidade, criado quando se começou a dizer que os recursos da mãe Terra eram limitados e que a produção e o consumo desenfreados de bens e fontes de energia, estimulados pelo capitalismo, poderiam levar ao seu esgotamento. Mais adiante levantou-se uma hipótese mais aflitiva : a de estarmos caminhando para a destruição do planeta Terra, se continuarmos nessa toada, com cada vez mais países e povos querendo alcançar os padrões de vida dos mais ricos. Os empresários e os governos que neles se apóiam e são por eles apoiados se apropriaram então desse novo conceito, para modificar políticas públicas e privadas com vistas a evitar os riscos anunciados. A sustentabilidade transformou-se com isso numa autêntica mágica que fornece saídas para todos os nossos males, porque pode ser usada em todos os cardápios ? Se temos então o remédio, ainda que muitos o entendam somente como condição para a boa continuidade dos negócios, porque não seguir em frente ?

O problema é que há ainda muita gente que ainda não desistiu de lutar contra o capitalismo, pelas mais diversas motivações, até religiosas. Mas porque insistem ? O capitalismo é assim tão condenável e perigoso ? Talvez convenha parar, um pouco que seja, para refletir com mais calma sobre isso. Há coisas que levantam muitas dúvidas. Mas o que mais me convence da necessidade de superá-lo é sua lógica básica, que está apoiada no regime da propriedade privada. O objetivo da atividade econômica dentro dessa lógica é ganhar dinheiro – sempre e o mais possível - e não o atendimento das necessidades dos seres humanos. Ou, visto pelo outro lado, o atendimento das necessidades humanas não é senão um pretexto para se ganhar dinheiro. Do lado dos consumidores, só podemos ter acesso, dentro desse regime, aos bens e serviços de que temos necessidade se tivermos dinheiro para comprá-los : a comida, a educação, a informação, a água, o tratamento da saúde, a moradia, a terra, o transporte, o lazer, etc. Somos assim obrigados a também lutar permanentemente por dinheiro. Como dentro da lógica capitalista tudo pode se transformar em mercadoria, a ser vendida para se obter esse tão necessário dinheiro, muitos se aproveitam disso para obtê-lo até em muito maior quantidade. É o que ocorre por exemplo com o conhecimento e os direitos de propriedade sobre ele. Há patentes impedindo que medicamentos já conhe-cidos sejam fabricados ou encaminhados a quem deles necessite porque estes não podem pagá-los. Ou é o que ocorre com as florestas que teriam que ser mantidas para equilibrar o meio ambiente mas são destruídas por causa do valor comercial da madeira.

Reverter os preconceitos

Em síntese, é para mim mais do que claro que, para construir o “outro mundo possível” que almejamos, o maior obstáculo que está à nossa frente e de todos os demais países é a lógica que atualmente rege as atividades econômicas em toda a face da Terra. A luta é evidentemente enorme. Ninguém nos escutará se sairmos por aí clamando por “socialismo”. Menos ainda se acenar-mos com “revoluções”, que obviamente amedrontam. Temos diante de nós um longo trabalho de informação a fazer, para reverter os preconceitos criados em mais de cinqüenta anos de propaganda, assim como os hábitos alimentados pelo consumismo. Precisamos caminhar rumo a um pós-capitalismo cujos contornos comecemos urgentemente a definir.

É dramático constatar que mil coisas ditas e discutidas pelo mundo afora não conseguem romper os muros de isolamento em que nos mantemos. Que susto pensar que em muitos lugares fala-se cada vez mais em buscar o “decrescimento” em vez de realizar metas de “crescimento” ! E que o poder do consumidor chega lá fora a ser eficientemente utilizado para bloquear absurdos do sistema ! Pode-se imaginar que os que denunciam o consumismo propõem inclusive a adoção voluntária de padrões de vida mais simples ? Pesquisas mostram que nos países mais ricos do mundo já começa a ser significativo o número dos que, em suas práticas, já adotaram estilos de vida diferentes da maioria. Nesses países os problemas ambientais mobilizam cada vez mais gente, porque eles abrem um enorme espaço de denúncia da lógica capitalista, no que ela exacerba o consumo irresponsável e com ele o desperdício. Há também os que tentam atingir o fígado do gigante. Eles inventam, nos caminhos abertos pela economia solidária, novos tipos de dinheiro que o retiram da sua atual posição de centro e objetivo final da vida das pessoas, e lhe devolvem suas funções básicas mantendo-o no lugar de instrumento em que deve permanecer.

Esses autênticos lutadores são ainda minorias, evidentemente, mas seu número aumenta cada vez mais, até porque cresce também sua consciência de que nenhum David terá uma funda tão certeira para desequilibrar o gigante de um só golpe. Uma imagem que já circula entre eles, mais adequada ao que temos que fazer, propõe a infinita multiplicação de enxames de abelhas atacando continuamente o monstro, por todos os lados(3).

Podemos ter esperança ? Nos países ricos as necessidades básicas das suas maiorias foram atendidas e o consumismo estimulado por esse sistema as empurra para o atendimento individualista e insaciável de neces-sidades de comodidade, em que é mais importante “ter” do que “ser”. Nós, brasileiros, não precisaríamos querer entrar no Primeiro Mundo. Poderíamos permanecer no Terceiro Mundo, com nossos modos de vida e nossas insuficiências, nele realizando no entanto um salto : do atendimento das necessidades básicas de todos ao atendimento de nossas necessidades de superação(4), situando em lugar privilegiado na escala de valores a cooperação, em substituição à compe-tição, motor do sistema capitalista que divide os seres humanos e os torna inimigos uns dos outros.

Se me permitem então sonhar, sentarei em alguma praça e ficarei imaginando o dia em que, em nossos meios acadêmicos e políticos, em nossos movimentos e associações, em nossas igrejas e em nossas comunidades cidadãs, possamos discutir inten-samente as experiências em torno de novos valores e perspectivas de vida radicalmente diferentes.

Para uma economia das necessidades humanas

por L.-J. Lebret e G. Celestin

No n°84 da revista « Economia e Humanismo », em 1954, L.-J. Lebret e G. Celestin explicitavam sua conceição da economia das necessidades. Extratos.

Uma economia ordenada das necessidades, onde uma quantidade de bens a mais ampla possível seria distribuída de acordo com a ordem de urgência das necessidades de todos e não segundo a hierarquia da capacidade de pagamento, deve amoldar-se precisamente à necessidade que ela tem de atender. […]

A lei da oferta e da procura seria definitivamente aceitável apenas se a procura refletisse com exatidão as necessidades. Na verdade, a procura só corresponde às necessidades solventes e não às necessidades reais, seguindo a fórmula "cada um segundo suas possibilidades". Nisso, ela esta aquém das exigências da humanidade no seu ponto atual de consciência e de aspirações.

Cabe então investigar como a economia poderia adequar-se às necessidades humanas ;
necessidades de subsistência, também chamadas de necessidades básicas, cujo atendimento determina a vida das pessoas e a criação dos produtos que atendem às outras categorias de necessidades ;
necessidades de conforto, cuja satisfação contribui a tornar a vida humana mais agradável, mas cuja superestimação pode levar à busca caótica do luxo ou da facilidade ;
necessidades de superação, que corresponde aos valores superiores da civilização. Há então de se estabelecer uma hierarquia das necessidades na ordem prática das prioridades de urgência (primum vivere) e na ordem moral da escala de valores (viver de maneira cada vez mais humana).

A economia humana inevitavelmente levanta o problema ético do fim e dos valores, e o problema prático dos meios e das técnicas. Ela levanta também, ao nível coletivo, o problema tanto cultural quanto político, da arbitragem entre as necessidades e entre os meios de atendê-las.

Artigo completo aqui.

Participação no Fórum Social Mundial

O FSM foi lançado em 2001 em Porto Alegre (Brasil), por iniciativa, entre outros, de Chico Whitaker.
O Centro Lebret-Irfed organizou um seminário em 2004 em Mumbaï, sobre "Indicadores de desenvolvimento espiritual". Vários membros da Rede Internacional Lebret participam regularmente das edições do Fórum.

Para a de 2011, em Dakar, de 6 a 11 de fevereiro, co-organizamos com ENDA (Meio ambiente e Desenvolvimento do Terceiro Mundo) e outras organizações Africano, duas oficinas : "Governança e Cidadania Ativa"e "Ética, Religião e mudança social”. Esta será também a oportunidade de reiniciar uma dinâmica regional na África, entorno à adesão à plataforma da Rede para um desenvolvimento humano e solidário.

Envie perguntas e comentários para :
debat.FSM.2011@lebret-irfed.org

"O otimismo do coração"

Crises econômica, social, política ; subida do nacionalismo e das extremas direitas em vários países ; busca de bodes expiatórios, geralmente os imigrantes ; mais exclusão, menos solidariedade…

Os próximos anos dificilmente alimentarão um grande e alegre otimismo. No entanto, aqui e ali, novas experiências estão surgindo, mobilizações aparecem, lutas se afirmam e, especialmente, homens e mulheres indios, ontem rejeitados, estigmatizados, finalmente conseguem ser reconhecidos como seres humanos. Raios de esperança num mundo cada vez mais cinzento, um fio condutor para continuar sonhando ? Sim, sonhemos um pouco, retomemos as utopias mobilizadoras. E, como dizia o poeta Valéry, "ao pessimismo da razão, oponhamos o otimismo do coração."

Mas a estrada que conduz do sonho à realidade é íngreme, com seus altos e baixos, suas mobilizações e contras-mobilizações. Este não é somente o caminho da Razão, é também o da relação de força. Não se trata apenas de convencer sobre a nocividade do consumismo e de opor-se à propaganda evocada por Chico, mas também preparar-se para responder aos contra-ataques dos "adoradores do bezerro de ouro" ameaçados em seus privilégios. Com todos os riscos envolvidos, inclusive e especialmente o de acabar parecendo com seu adversário, como se viu no passado recente com as experiências socialistas.

E então ? dois oponentes : eles e… nós. "Superar o capitalismo", de fato, não é um "mar de rosas".

É preciso saber disso para resistir aos pesadelos que produz um capitalismo em crise e caminhar rumo a uma sociedade mais justa, mais solidária, onde homens e mulheres não sejam alienados, coisificados e onde possam assumir o controle de seu destino.

Pierre Salama(5)

Notes

[1] - *Chico Whitaker, nacido em 1931 no Brasil, formado em arquitetura, ele é um dos organizadores do Fórum Social Mundial, ativista altermundialista brasileiro no Partido dos Trabalhadores e ex-secretario executivo da comissão brasileira Justiça e Paz. Recebeu o prêmio Nobel alternativo em 2006.

[2] - Encíclica Populorum Progressio. Infelizmente nos tempos dessa encíclica ainda não tinha sido desvelado, por obra e graça do movimento feminista, que o uso da palavra “homem” englobando homens e mulheres contribuía decisivamente, há tanto tempo, para a dominação de uma metade de nossas sociedades sobre a outra metade…

[3] - Imagem criada pela publicação “Turbulences”, conhecida nos meios altermundialistas.

[4] - O esquema de necessidades básicas, de comodidade e de superação foi proposto há mais de cinqüenta anos pelo movimento de Economia e Humanismo, seguindo as intuições do Padre Louis Joseph Lebret, conhecido no Brasil daqueles tempos. Ver a nota "Para uma economia das necessidades humanas"

[5] - Professor Emérito, economista, especialista da América Latina. Contato : pierre.salama@univ-paris13.fr


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