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CONSTRUINDO UM NOVO HUMANISMO

Foi et développement, N°319, dezembro 2003

por Patrick Viveret(1)

Vivemos um escândalo mundial. Cinqüenta bilhões de dólares – número do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNDU) – podem erradicar a fome no mundo, permitir a todos os seres humanos o acesso à água potável e à satisfação de suas necessidades básicas. Mas a comunidade internacional não chega a reunir esse valor. No entanto, em outubro de 2003 o Congresso americano votou um aumento de 87 bilhões de dólares para que George W. Bush prosseguisse com suas operações militares no Iraque ! Outro exemplo : a cada ano, 500 bilhões de dólares são gastos em custeio de publicidade e comunicação – isto somente na Europa e América do Norte. Outras cifras significativas : mais de um bilhão de seres humanos vivem com menos de dois dólares por dia, enquanto cada vaca do Ocidente se beneficia de 900 dólares !

DESEJO DE UM FUTURO

A demonstração chega sempre à mesma conclusão : os grandes problemas da humanidade não são problemas reais de escassez. A causa da fome pode ser natural (catástrofe climática) mas é muitas vezes resultado de perturbações locais : guerras regionais, monopólio de recursos. É também resultado da estratégia dos grandes mercados internacionais, que privilegiam a agricultura exportadora da Europa e dos Estados Unidos em detrimento das culturas de subsistência dos Países do Sul. Nenhum obstáculo natural impede que 6 bilhões de seres humanos se alimentem.

O mesmo se demonstra em relação à água ou às grandes epidemias. Os problemas ecológicos provém de causas humanas e políticas. A curva das emissões de gás carbônico subiu rápido a partir de 1870 com a expansão da revolução industrial. Os recursos mundiais são suficientes. Mas, por outro lado, afirmava Gandhi, são insuficientes para satisfazer os desejos de possuir de cada um. O problema da humanidade encontra-se, portanto, no mau uso desses desejos. A verdadeira questão referente ao domínio dos recursos, da riqueza, do desenvolvimento pode resumir-se no seguinte : a humanidade tem um encontro consigo mesma. A espécie humana – comparada a outras espécies animais – é ainda muito nova, mas se arrisca a auto-destruição, seja pelo emprego das armas de destruição em massa, seja pelos excessos no uso de suas potencialidades científicas e técnicas, como por exemplo, a clonagem de indivíduos humanos.

Pode igualmente acontecer que a humanidade se defronte com a perda do desejo de continuar sua aventura. Uma humanidade que perderia o gosto de desejar e amar, preferindo a clonagem, porque a sexualidade e o amor seriam perda de tempo e de produtividade. Este tipo de cansaço da humanidade levaria a desejar o fim da própria humanidade. A esta fadiga da humanidade onde as guerras e os genocídios – fenômenos recorrentes – são a sua mais terrível forma, opomos o desejo da humanidade, sua vontade de erigir o melhor de si ante a capacidade de não humanidade. Este problema é sem dúvida essencial e existencial.

Uma pergunta de ordem pessoal – “tenho ainda vontade de viver ?” – ganhou uma dimensão coletiva. A maioria das ciências, das religiões, das filosofias tratam do problema da angústia. Em geral, porém, em caráter particular. Hoje a situação é diferente, A angústia tornou-se uma grande questão política da humanidade. Não significa simplesmente medo das catástrofes ecológicas, sociais, financeiras. O que nos motiva é um desejo de humanidade, o desejo de nos lançarmos na aventura coletiva e não cairmos numa espécie de depressão.

O economista John Keynes já tinha pressentido em 1930, no capítulo final de seus Ensaios sobre a economia e a moeda, no capítulo “Perspectivas econômicas para nossos netos”, o paradoxo seguinte : a economia (ele se referia ao sistema capitalista) vai tratar cada vez mais dos meios de escaparmos da raridade, isto é, tratar das condições da abundância. Mas se esta mutação técnica e econômica não estiver à altura de uma mudança cultural caminharemos para uma depressão nervosa e universal.

UM MUNDO SEM SENTIDO

Vivemos atualmente um problema de mal-estar e de crescente subdesenvolvimento. O modelo “capitalismo-desenvolvimento”, hoje presente e imposto, conduz nossos contemporâneos a um impasse na sua capacidade de viver bem a trajetória da humanidade. Este sistema constitui com efeito a causa da “depressão nervosa universal” acima enunciada. Quando não há mais sentido, nem futuro, quando estamos condenados a considerar nossos “companheiros de viagem” permanentemente como rivais ou inimigos, caímos no subdesenvolvimento afetivo.

Este sentimento de imensa solidão nos lança também num subdesenvolvimento espiritual. Entenda-se aqui a palavra “espiritual” não no sentido limitado de religioso mas no sentido amplo que não exclui agnósticos ou ateus. O que caracteriza a humanidade, quando pode verdadeiramente desenvolver seu potencial – é o viver intensamente seu caminho de humanidade, de realizar a aventura que lhe foi reservada no universo. Privada deste poder, a humanidade no seu conjunto, as pessoas na singularidade de sua história, sofrem uma profunda depressão. Não é possível compensá-la permanentemente pelo estímulo do poder-dominação da economia, da droga. Do fumo, do álcool. O desejo de ser, o desejo de viver conscientemente e apaixonadamente a aventura humana é um grande projeto de vida. Está no âmago de um novo humanismo de que tanto necessitamos.

A política em dimensão mundial enfrenta hoje a questão, antes reservada aos filósofos e aos espiritualistas : “Que fazer com a inumanidade da humanidade ? Que fazer com a nossa própria barbárie interior ?”.

Aqui surge de maneira nova a reflexão sobre a natureza e o objetivo do desenvolvimento. Para sair da desumanidade, para avançar em humanidade, é preciso provocar um desejo positivo, isto é, um desejo de bem-estar. O medo de morrer ou de sofrer não é o bastante para mudar nossos rumos. Um exemplo : não basta simplesmente escrever Fumar pode matar nos maços de cigarros para se levar o fumante a mudar de comportamento. O medo do câncer não basta, é preciso ainda mostrar o bem-estar que ele poderá gozar com sua mudança de hábito.

A humanidade, no seu conjunto, deve empreender uma reorientação dos próprios eixos do desenvolvimento numa perspectiva de bem-estar.

A palavra “ser” é entendida aqui no sentido mais forte do termo. O desenvolvimento da humanidade no sentido de “ser” é infinitamente mais adequado que no sentido de “ter”. “Ter” é necessário para as posições de base da sobrevivência. Mas quando passamos da ordem da sobrevivência para a ordem da vida é preciso entender o significado de bem-estar.

Estou “bem” não é o mesmo que “tenho bens”. Na ordem do ter – “tenho bens” - tenho medo de perder esses bens. Invejo o bem do outro e tento eventualmente me apossar dele. Logo que satisfaço meu desejo de posse, de ter, eu me encontro numa situação de “falta”. Um novo desejo, irresistível, se apossa de mim. É preciso que eu satisfaça esse meu desejo de falta. Sinal indiscutível do meu estado de saúde : eu me tornei um “toxicômano”, uma vítima do ter, e me encontro profundamente doente.

A FELICIDADE : UMA CAPACIDADE DE VIVER INTENSAMENTE

O desenvolvimento na ordem do ter leva irresistivelmente ao desejo de posse, de rivalidades e de guerras sem fim. O desenvolvimento na ordem do ser, sem negar as normas e as pressões da economia, levará logicamente o ator econômico ao acolhimento, à generosidade, à cooperação com o outro. O melhor serviço que podemos prestar aos que amamos é ainda o de ser feliz, dizia o filósofo Alain. A felicidade é a capacidade de viver “a cada instante”. A felicidade não é um capital a conquistar e que temeríamos perder, não é muito menos uma garantia contra o sofrimento ; ela é a capacidade de viver intensamente a viagem da vida, de viver a invenção do universo.

Se considerarmos que investir na viagem do universo é uma aventura apaixonante – nesse momento passa a ser um direito imprescindível de todo ser humano ter o direito de viver “a cada instante”.

A vontade de crescer em humanidade é central nas transformações coletivas em todos os grandes debates planetários. Mas é também uma questão chave da transformação pessoal. Crescer em humanidade não consiste apenas na tensão dinâmica entre o local e o global, é também uma tensão dinâmica entre o mundial e o pessoal.

Assim, apesar das aparências, a abundância nos leva a colocar a questão do “por que”, a questão do tempo, da relação com o outro, de nossa inserção no cosmos. A pergunta : para que serve isso ? É tipicamente uma questão de abundância. Atinge portanto, o cerne de nossa civilização ocidental.

O EXCESSO : INIMIGO DA FELICIDADE

Que fazer quando possuo demais ? Não vale subestimar o aspecto político dessa questão. Isso porque dizer “o que fazer quando possuo demais ?” leva a perguntar : “como recriar artificialmente as condições da raridade ?” . A “melhor” maneira de se recriar a raridade é a guerra ! A emergência da guerra econômica, que se acreditava originar-se da crise do petróleo em 1973, remonta na realidade aos anos 60, em pleno período de prosperidade, de crescimento, no momento em que chegaram à saturação os grandes mercados, como do automóvel e do eletrodoméstico. Encontramos as questões colocadas por Keynes nos anos 30 : o que fazer com a abundância ?

Em 1965, dois caminhos se abriram. O primeiro era dividir mundialmente a riqueza, mas os países ocidentais não o seguiram. O outro caminho era a mudança qualitativa do nosso modo de viver. Esta escolha inspirou os movimentos de 1968, a fuga da sociedade de consumo. Este caminho não continuou. O que resta, então, como possibilidade ? Sair da abundância pela regressão : fabrica-se escassez pela lógica da guerra. De novo aparecem os riscos extremos, como a fome, nos países do Sul, a miséria nos países do Ocidente.

Voltam os esquemas mentais das sociedades de “miséria”. Na realidade, porém, todo problema vem da superprodução de uma indústria “supercapaz”. A super-abundância (compreendida como produtividade) é de fato nosso problema. E, longe de ser unicamente econômica, ela é antropológica e política. “O que fazer quando possuo demais ?” A essa questão colocaremos : é preciso aprender a crescer em humanidade – uma questão que não significa, de modo algum, um retrocesso.

Crescer em humanidade coloca a questão do humanismo que deve ser construído hoje e amanhã. Aí está um grande projeto político. Significa que colocamos a questão humana no centro de tudo. Este humanismo universal, reclamado por Michel Serres, longe de ser uma intervenção da UNESCO, não poderia ser uma simples projeção de nosso humanismo regional, de origem judeu-cristã – muito recente na história da humanidade, com seu modelo especial de representação do mundo. Devemos dialogar com todas as grandes civilizações.

Ao modelo da guerra de civilizações, admiravelmente descrito por Samuel P. Huntington (Le choc des civilisations, Ed. Odile Jacob, Paris, 1997) opomos uma lógica do diálogo “civilizatório”. Não somente para limitar ou evitar as guerras, mas porque esse novo humanismo tem necessidade de se alimentar de histórias e aproximações diferentes. Este diálogo consiste igualmente na possibilidade de se realizar um “jogo” entre o melhor e o pior de cada uma das civilizações.

Procurando caminhos de um novo humanismo não basta dizer : “Recoloquemos o homem no centro”, como se esta afirmação fosse já a solução, e nos livraríamos logo e facilmente do problema ! Recolocar o homem no centro, no centro da economia, da política, do desenvolvimento, da mundialização, tudo bem. Mas não é ainda a solução, mas apenas o início do problema ! Considerar a questão humana - ou o “bem-estar” – como questão e não como solução significa que teremos que atuar em todas as condições do nosso futuro. Algumas escolhas são mortais, como a guerra ou a negligência em relação à ecologia.

UM NOVO SENTIDO DO PODER

As exigências para se chegar a um novo humanismo são tais que dele ainda nos distanciamos muito. Devemos sempre fugir à tentação dos desvios totalitários – como o de querer à força a felicidade dos outros ! Propor um projeto usando uma política dominadora, ainda que com as melhores intenções do mundo, nasce de uma vontade totalitária e é um contra-senso do ponto de vista do diálogo entre as civilizações. Quanto mais avançamos em alternativas mundiais ao capitalismo, mais retornamos às razões de outras tentativas – sobretudo à tentativa comunista – que fracassaram.

O grande progresso da democracia foi desmilitarizar a luta pelo poder. Não mudou a natureza do poder – que continua a ser a capacidade ou até mesmo o direito de dominar o outro. Ora, o verdadeiro sentido de “poder” significa “poder de criação” e não “poder de dominação”. Quando me coloco no âmbito da criação “tenho o poder” de construir, produzir e criar e sei que meu poder de criação ficará multiplicado se eu cooperar com o outro.

O poder de dominação, ao contrário, basta-se a si mesmo : ele é procurado por si mesmo, independente de qualquer outro projeto que não seja a satisfação do meu desejo de poder, e tenho receio dos outros que procurarão roubá-lo de mim, ainda que por meios legais. A democracia não suprime a competição pelo poder. A democracia interioriza este modelo de poder-dominação. E o poder de dominação provoca rivalidades que levam ao medo do medo, com todas as regressões que isso significa (fanatismo, conflitos étnicos etc). Sair da lógica do poder de dominação, inventar a dinâmica do poder de criação – eis o problema colocado para a sociedade civil e para a sociedade cívica. Insisto ainda : sociedade civil e sociedade cívica, destacando que a sociedade cívica coloca a questão da emergência de uma sociedade política mundial. Este, aliás, é o movimento que nos levou a Porto Alegre e ao desenvolvimento dos Fóruns Sociais.

Por que foi possível promover esta troca de idéias políticas no pequeno espaço de um decênio ? Porque seus atores se mostraram capazes de trabalhar não numa relação de forças mas numa dinâmica de forças. Tínhamos atribuído ao capitalismo todas as influências : a mundialização, as novas tecnologias de informação, de comunicação, as liberdades, as finanças. Estávamos condenados à nostalgia, à espera, à passividade. Não mais havia energia criadora. Mas, a partir do momento em que começamos a dizer : “Nós não estamos na antimundialização, nós somos a outra mundialização, tudo mudou”.

É possível o bom uso das mudanças culturais, das novas técnicas de informação. Não é mais preciso se deixar impressionar com a pretensa linguagem neo-liberal.

De fato, esses neo-liberais não adotam absolutamente uma postura liberal. Não são liberais no plano cultural nem no plano político, muito menos no plano econômico. O que há, por exemplo, de mais violento que um capitalista “liberal” ou coletividades como o Estado quando intervêm obedecendo à sua lógica de dominação ? Os supostos partidários da mundialização se revelam então de fato hostis a uma verdadeira regulamentação mundial e são eles os pretensos anti-mundialistas que pretendem construir uma verdadeira mundialidade, isto é, uma regulamentação, uma solidariedade efetiva no seio da sociedade em vias de mundialização.

UMA “MUNDIALIDADE” PORTADORA DE HUMANIDADE

Nosso problema é portanto construir em face de um capitalismo arcaico, no plano da cultura e da civilização, uma “mundialidade” portadora de humanidade e capaz de fazer com que esta humanidade viva num planeta e numa biosfera onde seja possível viver. Nesta busca, o problema principal não está diante de nós : ele está em nós. Infelizmente, o que surge de novo nos movimentos ativos participantes dos Fóruns Sociais é a dificuldade em tratar suas próprias divergências. Corremos o risco de ver ressurgir a confrontação das relações de forças, as desconfianças, as intenções que arruinaram tantas esperanças principalmente no meio do mundo operário e sindical, na sua busca de uma alternativa ao capitalismo.

O Fórum Social Mundial tem ainda a chance de ser um poder que atrai. Seus participantes dizem que : não somente um outro mundo é possível, mas que “outros mundos são possíveis”. Eles devem adotar daqui em diante uma verdadeira metodologia democrática para construir o “novo humanismo” a partir das próprias divergências e desacordos. Não voltemos às insensatas “guerras de religião” entre reformistas e revolucionários, entre “ativistas” de escritório e lutadores de frente !

Temos que repensar o humanismo em escala planetária. E devemos integrar dimensão ecológica e dimensão antropológica. Esse humanismo é um desafio para os movimentos de esquerda e para o movimento ecológico no seu sentido mais amplo. O que eles mais reprovam no capitalismo é o seu anti-humanismo, a sua maneira arrogante de impedir os seres humanos de atingirem a humanidade. É neste terreno que temos de agir.

A humanidade está numa encruzilhada. Não podemos tratar dos problemas na base do “status quo”. Ou bem nos confrontaremos com os riscos graves de regressão ou bem cresceremos em humanidade. Todos os grandes estudos sobre o futuro mostram uma grave situação : fome, pobreza, armas de destruição em massa, defesa e divisão da água, reaquecimento climático. Uma das chaves do futuro : construção dos interesses comuns da humanidade.

Assim como no seio da democracia é preciso nos batermos contra o caráter muitas vezes desumano do capitalismo industrial – obtendo ou conservando os direitos sociais, políticos, culturais e pondo em prática sistemas de proteção social – da mesma maneira devemos trabalhar no seio da mundialidade, por uma outra mundialidade possível.

Não podemos aceitar que grande parte da humanidade se encontre marginalizada pela pobreza, pelo desemprego, pela exclusão social. A alternativa ao capitalismo dominante e pretensamente liberal apóia todo projeto de “qualquer política” que pretenda fazer do “poder como criação” uma realidade e não unicamente um sonho.

Patrick Viveret
tradução : Odete de Azevedo Soares, Brasil

Notes

[1] - Patrick Viveret, filósofo de formação, é diretor de “Transversales Sciences Cultures”, conselheiro na “Cour des comptes” e autor do relatório “Reconsidérer la recherche”. Este seu artigo foi publicado em “Foi et Développement”, revista do Centro L. J. Lebret, de Paris, França, nº 319 – dezembro 2003.


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